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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Gatos

Apiedo-me das pessoas que portam bolsas
Sofro mais pelos cães que arrastam trenós
ainda mais por cavalos que levam charretes
Choro pelos burros atados a carroças

Burros forçados a puxarem carroças
burros sequer sabem o que puxam
Pessoas via de regra levam bens alheios
a maioria das pessoas, afinal, feito burros, são forçadas

Boa parte delas têm nada seus para levarem
gosto das pessoas que nada têm
gosto mais dos cães e dos cavalos
Prefiro os burros, tanto mais pobres

Gatos, odiados por serem livres
Gatos, peritos em fazerem nada
gatos roubam sem serem vistos
cães e cavalos, indiscretos quando roubam

burros morrem inanes por serem ingênuos
gosto dos gatos quando roubam, astutos
gosto mais dos cães, quando pegos a roubar
gosto dos cavalos e dos burros, incautos

gosto menos das pessoas que roubam, larápias
gatos sabem que nada existe por si mesmo
tudo existe porque existem necessidades
a necessidade do gato não é a usura da pessoa ladra

A nudez é o estado natural do gato
nulo de culpa, fiel ao instinto, existe o gato
Gosto das pessoas que nada têm e que existem
gosto mais daquelas que de nada precisam

Gosto das que ornam-se com simplicidade
gosto mais das que andam nuas, feito gatos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Na Gruta

Descobrir na gruta a cama e dormir
a sabedoria primordial deve nos guiar
para além do que a ciência explora
há sempre o aroma do chá

Não devemos mais ter medo de deus
nem seguir profetas que dizem não
ou ritos que entregam sorrateiros
o poder para poucos, sem razão

Destruamos os templos
rezemos na praça
abertos, musicalmente
abraçar árvore, cultuar trovão

Vamos usufruir das coisas
como coisas que são
Apreciar a arte,
sem lhe cobrar utilidade.

Porém se servir o poema
para algo concreto, que seja
batido como gema e se torne
revigorante gemada poética

o que existe entre nosso olhar e o planeta
cria imenso abismo entre nós e o planeta
descobrir na estrela um farol e segui-la
para vivermos nossa santa animalidade.






Publicado originalmente em Maio de 2006.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Venda

Jornalista amigo/a, é o seguinte:
- e isso vale a todo/a escritor/a -

se pretende vender algum bem ou objeto,
evite apresentá-lo por uma crônica.

É difícil não ser cretino/a
com artifício abjeto, entende?

Primeiro de tudo, sua verdade:
se vender algo num dado instante,
seja o que for, assuma-o, de pronto

Nenhum de nós não é também
um/a vendedor/a , é certo, quando
sem as enxadas planta jornalismos
ou, sozinho/a, fabrica suas artes.

domingo, 11 de agosto de 2013

Odiosos nas Calçadas

Xingar os homens que não me querem
dizer-lhes boas verdades
arrancá-los de suas mulheres
destituí-los de meus beijos

Abduzidos por minhas vontades
e desprovidos de meu amor
Alheios aos meus tesouros
feios de rancor, vãos de destinos

Arrastar-lhes as línguas no asfalto
Cuspir-lhes nas bundas frescas
sugar-lhes a graça cheirosa
de suas felpudas axilas

deitá-los sobre o meu desejo
e dar-lhes bons tapas nas fuças

Dizer-lhes minhas vontades
Arrancá-los de meus tesouros
Destituí-los de suas mulheres
xingar os homens que não me beijam.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Suspensas

Malas
Malas pardas, malas brancas e pretas
Malas azuis, malas novas
Malas à espera, medrosas
Histórias e zíperes
Crianças cansadas, velhas senhoras
Quantas horas até a partida?
Quantas vidas, revistas, memórias
Medo de um urubu jogar-se na turbina
Medo da turbina
Urubu suicida, aeromoça fina
Vidas suspensas no saguão
Medo do piloto, se um suicida
Asas de aço, asas de abutre
Turbulência, mala perdida
Lanche de bordo, enjôo
Asas abertas, asas prontas
Malas repletas, malas tontas
Malas amarelas, malas rotas
Malas preciosas, malas tortas
Malas suicidas, esperançosas
Malas sobre rodas, malas gringas
Malas imóveis, à espera
Malas.

sábado, 27 de julho de 2013

Mana

Voar pelo espaço e invadi-los
pelo olfato
Ser e estar em contato, pleno
Contagioso, inebriante

Todos os seres que se assemelham
E todos os contrários,
curá-los
Levá-los deste mundo, sem lhes pedir

Alojá-los
no polo gélido da consciência
no buraco vazio da galáxia interior
ou no coração da coletividade.

Ser e estar em contato, divino
A pedra ao peixe, a ave ao cordeiro,
atá-los
Na face da lua cheia

Vindo por trás, com dois dedos
liberá-los
Dar-lhes a inalar o feitiço,
sacudi-los ante os incrédulos

Sabê-los meus e todavia repeli-los
quando não mais existir, evaporado
transcendido, o éter da magia

Do espaço ocupado escapar
pelas narinas, que agora o expiram
ante os incrédulos.

domingo, 7 de julho de 2013

Posta

Dizer direto
Eu não caibo
Em seu mundinho de papel

Não dá para mim,
Está bem?
O tempo muda logo em seguida

Reter qualquer coisa
Na vida (oh, mano)
Impede a humanidade, mora?

Como diria Jacinta
Na pista
"Calcinha pouca, pinguelo de fora"

Agora, posta
Foto na rede, instantâneos
Criança triste e sanduiche de macarrão.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Pescaria

Puxei a lágrima com um anzol
fisguei a dor
abracei a morte e a ressurreição
me salvou

enxerguei as 20 crianças mortas ontem
mais outras tantas mortas por inanição
o boi perfurado na arena gritava
eu vi corpos decapitados na guerra

lembrei-me de minha mãe e de meu pai
que me ensinaram a sentir,
ainda que fisgada abrupta de flecha
Sem outra saída, senão lançar-me

"sem medo, filho, vá, sozinho"
e cá estou eu, a pescar, raivoso
num vasto cômodo de emoções

Viscoso, salgado, resoluto
veneno me queimava os olhos
sem pressa, faleci, até que

pela fruição de sentimentos
revivi, outro, e nesta pescaria
o peixe fisgado fora sempre eu.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Poesia irresponsável
trolha sem rimas
navalha cega a rasgar a cara
reconhecida imprecisão literária

inspiração dispensável
beijo de novela
insípida palavreada
purulentos versículos

mortadela vencida
pior que outra coisa
branca encardida
sangue pelo nariz

lírico excremento
musgo sacrossanto
cai lá, cai cá
bestial cacofonia

pela greta da cabeça
e pela ponta de lança
na guerra perdida
derrocada merecida

ignorância performática
lata de açúcar vazia
sem métrica, sem chão
flatulência, latrina

sem um pingo de juízo
sem meio de sobrevida
sem dó, nem perdão
irresponsável poesia.