Arquivo Murilo
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
  Encantada
A Raquel, minha prima, pelo seu aniversário de 30 anos.

Apareceu no céu
uma estrela menina
e ela nasceu, Raquel
travessa espoleta, sabida

De fada, virou princesa
Sem moleza, mobiliza
a vizinhança. Criativa
altaneira, nobre prima

danada guerreira
minha mãe a adorava
linda flor de esperança
é você, encantada

Flash, sorrisos de estrela
à vizinhança, arteira
a mim, humor de letra,
minha prima Raquel,

Maravilha mulher
guerreira espoleta
Ambição loura, travessa
esplendor da natureza.

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Quinta-feira, Outubro 29, 2009
  Cidade Menina

Salvador, meu mundo novo
minha cidade escondida
iluminada, és linda
com a gente

vaidosa alegre
sem culpa
dilacerada e nobre
dama negra

rebola e sua
acorda quente, dorme
igualmente quente
uma brisa, de repente

passeia cosmopolita
desperta para a vida
Salvador, percussão
é saúde, se eu quiser

e Deus a quer
vogal a, e pronome
cidade menina, meu rei
Bonocô, Piedade, Piatã, Amaralina.

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Terça-feira, Outubro 27, 2009
  Destino de um párea

Horrenda assombração
descontínua, imperfeita
circunstancial, breve
avessa e inacabada


Um morador da rua
pergunta-se, estarrecido:
“a quantas andarei eu
se permanecer aguerrido

será que eu vou ficar assim
como meu contemporâneo
que come a réstia do chão?”
Respiro resignado, estou salvo

Eu apanho da marmita
a gororoba que certa Isaura
serve na madrugada da via
Minha dignidade masculina

Eu escolhi minha vida
lavo meu próprio chapéu
infante leal escapista
analfabeto, ou réu,

um párea na pista
ávida formiga
esquecida em fuga
apartada da família

Na marquise, não dormia
visitei um viaduto, contudo
não sai da minha sina
retornei mais desvalido

traidor da morte,
indolente suicida
sugo as ancas do sistema
bem abaixo da medida


Distante da comunidade
saudosista otimista
suprimindo a descoberta
da roda da fortuna.

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Domingo, Outubro 11, 2009
  Videoclipe
Aos amigos, na maior pieguice, porque os amo.
Viva Sinead!



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Sexta-feira, Outubro 02, 2009
  A oficial menstruada

Eu poderia contar como ela nasceu e destacar acontecimentos de sua curtíssima juventude, contudo nada se compara à narração de seus últimos dias. Intensos dias que reconfiguraram seu perfil intrigante de mulher. Barulhentas horas, decisivos minutos submetidos aos ditames da natureza impiedosa. Nada em sua vida civil se compara ao lugar em que ela estava quando morreu.

Virgínia estava na guerra aos vinte e um anos. Treinaram-na para a pilotagem de tanques sofisticados. Em pleno campo de batalha, nos dias em que a guerra atingiu o seu ápice, ela dividia acampamento com mais vinte e cinco homens. Sentia falta de companhia feminina, principalmente porque seus dias estavam próximos.

Branca e esguia, não era bela. Tampouco despertava a curiosidade dos demais soldados, todos concentrados no front. Sozinha, passou a se preparar para conseguir aliar sua guerra hormonal com os afazeres de guerrilheira oficial.

Uma descoberta encheu-lhe de desconforto: havia esquecido na base o seu pacote de absorventes. Sem água para se banhar, descobriu então que não seriam fáceis os próximos dias. Rumo ao ataque em Basra, impetuosa, pensava em como superar esta dificuldade. O sangue passaria a jorrar de suas entranhas e ela não conseguia disfarçar sua inquietação, seu medo de feder e não ser compreendida.

Nervosa, logo sua mente começou a gerar imagens alucinantes; feras vindo atormenta-la, famintas no deserto. Como se no deserto outras feras existissem, além daqueles soldados no tanque de guerra que ela dirigia, pensou. era ela ou eles, todos eles. O ambiente fechado aumentava sua ansiedade. Entrou em pânico.

Mesmo fadigada, lutou ferozmente na conquista da periferia da metrópole iraquiana. Resultado da operação: sete mulheres e crianças feitas prisioneiras. As crianças com seu choro inocente a enchiam de um pavor tão indescritível que chegou a chorar também, como se estivesse em seu quarto. Estava prestes a menstruar. Passou pelas ruínas de uma cidade invadida. Estava agora no meio do deserto, cercada por homens cansados, assassinos adormecidos ou vigilantes. Para tentar recuperar algum equilíbrio, tarde da noite, passou a caminhar por entre os prisioneiros.

Aproximou-se do grupo de mulheres sentadas, vigiadas por quatro dos seus colegas. De repente, o gesto de uma senhora a comoveu a ponto de querer trair a si mesma. A senhora interrompeu seu choro, para lhe oferecer um trapo que rasgou da própria roupa, como se sentisse no vento forte o cheiro que as igualava. Virginia logo entendeu: o pano servir-lhe-ia para amparar seu sangue de mulher. Recebeu o pano e lhe respondeu, envergonhada: thank you. A ansiã iraquiana, por sua vez, abraçouseus joelhos e voltou a chorar. Uma menina fitava Virgínia enquanto chorava, em contrapartida.

A noite passou e ela observava, de dentro do tanque, aquelas pessoas submetidas a uma invencível tempestade de areia noturna. Chorando, resolveu tomar uma atitude: pegou uma granada e, num instante, libertou os prisioneiros, deferindo o armamento contra o local onde se aglomeravam seus companheiros, matando oito deles e atordoando os demais.

Liderava o bando de mulheres e crianças que gritavam, como que pedindo socorro ao vento bravio. Gesticulou ferozmente, atordoada pela torrente hormonal que a inundava de excitação insana e lhe preenchia a vista com um vermelho viscoso e frio. Sabia que liberava reféns.

Os jornais do ocidente repetiram a versão oficial da notícia, alegando, sem conseguir convencer o público, um ataque voluntário árabe suicida. Para ela, agora, pouco importava. Dois dias se sucederam, este intercurso serviu para aproxima-la da comunidade que libertara e que, entretanto, ainda lhe via com desconfiança. Foi dela mais uma idéia audaciosa, desta vez um plano para atravessarem a fronteira. Bastava-lhe surgir a oportunidade. Explicou a idéia da fuga como pôde às mulheres. Esperou a oportunidade.

Horas depois, chegaram a uma estrada e logo passou por eles um veículo em pleno deserto, com apenas um homem a guiá-lo. Certamente, veio em busca daquelas pessoas, antes se tornarem prisioneiras de Virginia, a desertora. Planejou atravessar discretamente as mulheres e crianças pelo cerco de soldados aliados. Continuava a contar com a ajuda delas para se manter limpa de sangue e por isso queria lhes retribuir com a liberdade.

Embarcou com elas no automóvel, rumo às terras calmas do sul. A frágil solidariedade entre inimigos mantinha unido o grupo. Estava confusa, menstruada e se sentia estranhamente feliz. O motorista dirigia a van. Ela, escondida aos pés dos passageiros no banco de meio, espremia seu ventre, para atenuar o nervosismo.

O carro com o grupo foi visto ao longe pelos guardas de fronteira, em sua maioria soldados estadunidenses. Ela ordenava ao motorista para que continuasse a correr, que ele não parasse o carro. Adiante, os soldados empunharam suas armas, diziam “stop”, enquanto ela, dentro do carro, gritava “run”.

O motorista obedeceu à ordem da desertora, as mulheres e crianças cantavam alto, rezavam talvez. Ao passar pelo posto oficial, uma rajada de balas de fuzil lhes atravessou a todos. A criança ao seu lado teve o torax arrombado. A música deu lugar aos gritos até somente se ouvirem tiros e depois os passos e as vozes dos oficiais que se aproximaram do carro com as rodas para cima. O cadáver foi arrastado pelos cabelos até o acampamento.

Os noticiários anunciaram a barbaridade, sem saber que uma oficial norte-americana coordenava a fuga. No acampamento, seu corpo exposto como traidora, sem honras. O mundo não soube de sua existência. Mistérios assim seriam jamais bem vindos. A motivação de Virginia, seu sangue e seus hormônios não foram levados em consideração pelo seu antigo general, obviamente. Ele continuou sem entender suas razões, levadas à cova pelas mulheres que presenciaram os extremos de sua deliberada intenção de salvar o mundo.

Murilo Guimarães
02 de abril de 2003.

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Nome: Murilo Rodrigues Guimarães.
Local: Salvador/Macarani, Bahia, Brazil

Um conjunto de impressões, sensações e pensamentos sobre a vida neste lugar, neste momento.

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