Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

Calvanhaque

(Em revisão)

Reservas a ti uma vida de insucessos
tomas como teu o frêmito impalpável
sem veres que por trás dele gargalha
o verdadeiro autor de tua crença

renegas tua alma enquanto desces
aos túmulos de vontades interditas
foste carrasco de tua impetuosidade
entregaste ao cão as tuas motivações

lanças a esmo o fel de tua sanha
ensina o mal com ardis a tua fala
tuas mãos tocam pérfidas delícias

sob a sombra da agonia
desta árvore, marco último
da nulidade que é tua vida.

Uma mulher enfadada te espera em casa
guarda resiliente vasto e lúcido desejo
na espera calma do dia em que tu faltes
para viver as alegrias que lhe roubas.


Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

Caia, agora
desça, corajosa
palavra, querida,
reviva, inteira

Aos meus dedos, flua
generosa, caia, agora.

Sábado, Dezembro 10, 2011

Felicidade dois terços

Há uma felicidade miúda
que aparece em dois terços das coisas
nunca nas coisas completas
que fica por lá, tímida
esperando ser encontrada
que solta grunhidos esparsos
e assobios engraçados

Uma felicidade menina
que aprende a ser gigantesca
felicidade discreta e distinta
dessas que não se empolgam
que não se deixam levar
Coisa rara hoje em dia
felicidade concisa

Uma empolgação tardia
sensação maravilha
que apenas salta aos sentidos
depois que a tarde se finda

Felicidade assim, uma jóia
que denuncia a impaciência
esta algoz da perseverança
carrasca da resiliência.

Sábado, Novembro 26, 2011

Mosca

Uma mosca
infame e
ininterruptamente
higieniza-se

O açúcar, a cenoura
o resto de coentro
a omelete e a soja
a bosta do gato

eu e minha própria bosta,
alimentos da mosca
Minha carne morta
sebosa, putrefata

minha casca esvaída
meu sangue, minha vida.

Farta de mim, sua comida
uma mosca se higieniza.

Domingo, Novembro 13, 2011

Sem ideia

Havia uma ideia
uma ideia propícia
uma revelação
embrião d'um poema

sumiu, bandoleira
pelo canto da sala
nem rastros deixou
nem aceno, ou adeus

deixou-me sem brio
num vácuo, no frio
renegou meu carinho
triste está minha mão

perdida, ainda afaga
a folha de papel
restou-lhe o papel

sofrido, tadinho,
caído, sombrio
jogado, ao léu.

Quarta-feira, Novembro 09, 2011

Pobre e livre

Comprometido exclusivamente
com a propria vontade
a morte da chama
é sequer percebida

Explora a madrugada
faz pouco caso do dia
aproveita da colheita
sem se importar com a valia

Sem lucro ou perspectiva
indiferente à pobreza
solidário ao destino
dos habitantes da via

Aproveita a oferta
do cantinho aquecido
saciado, oportunamente
desgarra-se da experiência

Vive sem expectativas
pede para ver se ganha
cama, carinho e comida

E quando a lua furtiva
iluminar outra promessa,
dar-se à última escapolida.

Segunda-feira, Outubro 24, 2011

O inconformado

Enquanto eu bebo um chá e assisto a um filme
histórias de horror preenchem vidas
A chuva leva casas e as acumula
no baixio onde as bestas matam a sede

Depois de o silêncio se impor aos meus ouvidos
passei a ouvir o cacarejar de galinhas mortas
Senti o hálito nauseabundo do mentiroso
Quão ignota pode ser nossa humanidade

Todavia, sei que nada do que eu disser mudará isso
nada do que eu fizer calará essa boca

Pastores continuarão a enganar pelas igrejas
almas que valem uma moeda, ou talvez sete

Ainda que o que eu acredite esteja errado
é menos cruel do que o que fazem aos aleijados

Por que o sono não me chega, se a chuva o convida?

Por que sou eu a me importar com galilnhas mortas?

Sexta-feira, Setembro 23, 2011

Besteira

Vai que o que eu sinto
seja a perseverança indomável
de uma criança que grita.
Chama de vela fina
tal qual beira de balaustrada,
fiação na rua caída.


'Vamos acompanhar',
que a vida ensina em besteiras.
Vai que o que sinto é esteira
que serve também de cortina.

Domingo, Setembro 18, 2011

Igual ao teu

Ao fabricar do veneno igual ao teu
e dá-lo de beber a quem me quis
eu compreendi perfeitamente
parte substancial de tuas razões

a saliva deste amor
nectar de sensações
ditas e malditas,
delícias obtusas

duas formas sucessivas
frescas, suaves, fatigantes
e também ácidas, furtivas
a corroerem os encantos

este amor esquisito
fraqueza da natureza
ilusão desmedida
embriaguez perigosa

Amor demasiado
excede a pimenta
grave, acinzenta
o céu de brinquedo.

Quando dei de beber
do mesmo pote, veneno,
a alguém que não tu,
saquei teus motivos

escancarei tua vida
atestei tua verdade,
- mão à palmatória -
aceito a despedida

Como se nada mais restasse
veio o último suspiro calmante
"o sorriso do gato de Alice"

Olho ao lado, outra criatura
adormece, com uma gota
deste amor igual ao teu.

Sábado, Setembro 17, 2011

"Por que não viver esse mundo, se não há outro mundo?"

Uma viagem transforma gente em parafuso, em vento, em sombra, em mar, em sol, em cinema, em mato. 
Ontem, antes de sair para uma noitada inusual, assisti "Melancolia", de Lars von Trier, e "Os filhos de João", sobre os Novos Baianos.


Eu, a cada filme de Lars von Trier que assisto, fico me esquivando de dizer que ele é o que eu considero o maior cineasta deste tempo! Talvez um dos últimos cineastas...


Ele consegue alterar completamente o modo de se construir uma obra cinematográfica, utilizando os elementos mais básicos da técnica: a luz e a câmera. O filme começa e termina com um apuro visual como poucas vezes eu vi. São imagens pungentes, em lentíssimo movimento, com aquelas atrizes, o menino-ator, o cavalo Abraham... os passos de Claire se afundando na lama, o eletromagnetismo nas mãos de Justine. As cenas narrativas, por sua vez, foram filmadas com steady cam, o que fez deste equipamento uma perfeita realização de subjetividade.


Eu estou tomado por "Melancolia".

Uma câmera na cabeça e uma ideia na mão

Acho que Lars von Trier representou minha fantasia de "fim de mundo 2012".


Nada é mais bonito do que a entrega do ator e da atriz às suas personagens.
Kristen Dunst divina como Justine, com o corpo delgado, voluptuosa. Charlotte Gainsbourg é minha ídola. Delineou sua Claire com as nuances que o texto exigia, sem tirar o brilho resplandescente da colega, Dunst, que se mostrou assustadoramente bela; esta bela "Melancolia", que contra nós se chocará e nos destruirá, sem dó.


Além da boa surpresa ao ver Alexander Skarsgård abrir o filme, o vampiro Eric Northman de True Blood, que representou o noivo desprezado de Justine.


Estou profundamente tocado por este filme.




Quase perdida, Baby?
Ainda bem que à noite, para tentar restaurar um pouco do conforto, comecei por assistir "Os Filhos de João". Eu equiparo os Novos Baianos aos Mutantes e aos Secos e Molhados.

O documentário é recheado com entrevistas, especialmente de Tom Zé, e boa coleção de imagens de arquivo. Tem problemas na mixagem, custa-se a se acostumar com a diferença do volume do som das falas em relação ao da trilha sonora. Porém, o filme conseguiu manter a memória do "conjunto" de música excepcional, esclareceu a influencia seminal de João Gilberto e me deixou triste por  Baby desautorizar o uso de sua entrevista. Queria compreender a sua atitude! Acho que pode ter sido pela alusão à prostituta "Baby Consuelo", personagem do filme "Caveira My Friend", cujo nome acabou por ser imortalzado por ela, a atriz que a interpretou nos anos de 17970. Mas, por hora ela se denomina Baby do Brasil.



A noite continuou, deu voltas um tanto sinistras e me trouxe de volta a Kate Bush. Não sem antes me fazer "virar o carro" e sentir a alegria segura do filho de Claire, e o desespero final desta. Ver Justine nua, sob o azul de "Melancolia", dias antes dele se chocar contra o pequeno castelo de John.


A viagem continua...





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