segunda-feira, 22 de março de 2010

Das Humanidades

Somos todos feios
nas Humanidades
com línguas soltas
bonés e calças rotas

peles flácidas
anti-atléticos
entre esquálidos
barbudos pálidos

Carecas malvados
jovens míopes
velhos cansados
amarelados cínicos

Bigodes pardos
sabem a cigarros
supersticiosos ateus
em densos cavanhaques

Autoridades do verbo
solenes improvisações
causam-me riso as saias
das mulheres sem batom

Autocratas enrustidos
vertem maus-cheiros
doutores raivosos
sobre livros mofados

Somos todos feios
fedidos malquistos
sob os escombros
das Humanidades.

terça-feira, 16 de março de 2010

Retrato




Um personagem evoluiu em meio à bruma
e fez um verso d'uma sombra matinal:
"por detrás da escravidão fabril,
dos integrados à sociedade,
e da moderna tecnologia
transita a fome estreita.
Uma dor contrita minha alma espreita,
sua língua instruída expressa minha ignorância."

Minha cara ligada ao meu pé silvícola
afro-descentende enfim compreendeu:
sobreviver à minha existência
era o que me restava até eu ler
o que aquele brumado personagem revelou:
sua infância suja, maltratada,
desviada, enraivecida antes dos cinco
e antes dos dez a cachaça,
a ingrata ciência brasileira
da nossa absoluta miséria.


Quinta-feira, Junho 29, 2006