Roubam as horas
o pão e a semente
o olho da menina
Do cavalo, roubam a crina
Da ave, levam as penas
a dor da cantilena
do doce, a rapadura
do confete, o carnaval
Roubam, sem vergonha
o vasto reino da história
do oceano, roubam a costa
Em nome de Deus, a razão
Roubam versos e prosas
roubam fás, rés, mis e dós
da terra, o lumiar da aurora
da fauna, roubam a flora
Roubam renitentes
o frêmito brilhante
do espírito da memória
Roubam, indigentes
a humanidade da cantora
depois de morta
Roubam, sem pesar
o gosto da comida
Roubam, para matar
atrás da porta, a vida.